esquecimento
Cá estou eu sentado, sentido saudades do marulhar das ondas do zulmarinho, de verter uma e outras loiras estupidamente geladas, falar-te sem saber se me ouves, caminhar na areia das mil cores sem saber quando os meus passos chegam ao fim.
Mas aqui estou sem alguma vez dizer o teu nome mas a imaginar-te com um sorriso no olhar, esquecendo as palavras que calaste talvez porque não tinham nada para me dizer, os silêncios que me enviaste pelas ondas deste zulmarinho carregado de magia.
Aqui estou eu pronto a ouvir-me nas muitas palavras que te falei, nas lágrimas que te chorei e nos sorrisos que te sorri. Aqui estou, peito aberto, sem esquecer-te mesmo que tenha de adiar-te, sem rancores mesmo que sinta, ou veja, que te caí no esquecimento.
Despertar
Me sento por aqui e tento recordar-me, buscando no fundo da memória, o perfume da terra molhada, o calor sufocante dum meio dia, o barulho ensurdecedor dum engarrafamento permanente.
É, porque sempre que é noite regressam as sombras ténues das recordações que vivi. Com elas regressam todos os sons, todas as cores e todo o ciclo de passos incertos duma aposta de vida.
Aqui me sento como um ferido que se deve cuidar, abafando a dor da perda, a dúvida medida em certezas dum copo vazio de vida.
Aqui me sento tentando ver como irá acabar a ilusão da incerteza duma mudança de vida que se transforma num pouco a pouco de recordações e memórias. Aqui me sento sabendo que deixo para trás uma cama desfeita de sonhos e um caminho iluminado por uma vela acesa de esperança num despertar diferente.
25 – Estórias no Sofá – Jacinto Nunca
- Que vês? lhe perguntou com voz de quem também podia estar calado, indiferente à existência de uma possível resposta.
- Isso importa? respondeu ela no mesmo tom.
- Mas claro que importa. Pensas que vou estar sempre a adivinhar o que vês? disparou ele que sempre tinha de adivinhar o que ia na cabeça daquela mulher.
Depois desta interessante conversa de xáxa ele se deteve assim como que a lhe olhar nos pormenores. Naquela posição, debruçada sobre a janela, ela tinha escolhido uma que lhe ressaltava os contornos e tornavam perigosas as curvas.
- E tu para onde olhas? perguntou-lhe ela sem se voltar para ver onde ele estava mas parecia que lhe adivinhava.
- Sabes bem. Tenho estado a olhar-te. respondeu ele já num outro tipo de voz, melosa.
- Já são dois. Tu me olhas de trás e desde faz tempo me olha fixamente um homem desde o outro lado da estrada. disse ela dentro da sua imobilidade de faz tempo de quem está na janela.
Ele retirou os olhos do corpo dele e os dirigiu para lá da janela. O mar estava calmo e reflectia o azul claro de céu. Nada mais conseguia ver. Também não se esforçou muito para ver mais, já que o seu quadro estava ali como que emoldurado na janela, obra perfeita dum pintor afamado.
- Queres que saia da janela? lhe perguntou ela em voz sussurrada de quem não tinha vontade de obedecer se a resposta fosse sim.
- Não! Fica assim para que eu te fixe na minha memória para todo um sempre qualquer. retorquiu ele prontamente com medo que ela se mexesse ao mesmo tempo que media todos os ângulos e fazia todas as tangentes possíveis com o olhar, lhe tentando imaginar o corpo sem aquelas capolanas.
Foi então que ela ouviu a voz que chegava desde o outro lado da rua:
- Se te incomodo diz que vou embora.
- Pergunta a Vénus. de imediato respondeu-lhe ela.
- Quem é que é essa?
- A Deusa!
- Não gosto de Deuses.
- Mas essa é a Deusa do Amor.
- Dessa tenho medo, lhe fujo desde que me recordo. dizendo isto começou a afastar-se. Uma estrela de razões e raciocínios o seguiam. Dava para ver.
- Creio que tem razão, há muita estupidez a girar no mundo. gritou ela agastada com o afastamento daquele homem que lhe esteve ali a admirar.
Girou 180º e olhou de frente para Jacinto Nunca, que nem assim desviou os olhos do seu corpo, nem assim interrompeu a série de pensamentos que pensava. Parecia mesmo ele estava ali a sonhar. Seus olhos brilhavam, seus desejos estavam como que a rebentar. Agarrou na mão de Jacinto Nunca, lhe disse umas palavras ao ouvido, ele pulou de contentamento.
Jacinto Nunca nunca mais foi visto e hoje corre a lenda que ele foi à procura de Vénus e pelo andar da carruagem ainda não lhe encontrou.
Sanzalando
com armadura
Quando a armadura está forte poucas coisas conseguem atingir-me e eu por vezes penso mandá-la para as urtigas mas lá aparece uma outra coisa insignificante a dizer-me que é melhor continuar assim.
E por isso assim me sento, olho longe e digo as palavras que me apetece dizer no significado que lhes quero dar.
Sanzalando
a carta que não escrevi ainda
Na verdade é que te penso constantemente e assim a nostalgia se afoga em ansiedade e esta se afunda em tristeza. E assim as palavras não saem para a carta que eu te queria escrever e assim tu não recebes por viva voz as palavras que eu não escrevi.
Te pode parecer um absurdo que mesmo assim eu tenha alegria que me faz dourado o meu dia que se parece assim com um cinzento de chumbo a querer ameaçar uma chuva forte interrompido por raios de sol.
Me sento aqui e ainda não é hoje que te escrevo a minha carta.
Sanzalando
saudades de mim
Vou fazer mais como então? Me procuro e até parece me escondo de mim.
Mas um dia, aqui sentado ou deitado, ou noutro sítio qualquer, eu encontrarei as palavras que te disse, secarei as lágrimas e retribuir-te-ei o sorriso.
Sanzalando
autor ou personagem
Me sento por aqui e me apetece despedir o autor e ficar apenas a personagem até encontrar uma nova estória não dependente de estados de alma, perfeita e com novos mundos. Mas a proximidade de ambos é tanta que se torna difícil distinguir um do outro e até poderia acontecer despedir erradamente, o que seria duma irreparável consequência, pelo menos para mim, que não sei já se sou autor ou personagem.
Sanzalando
…eu não teria outono
Muda-se. Tudo muda.
As horas são intermináveis e as recordações parece que faltam. Escuto, escuto-me e me deixo envolver nas vozes fantasmas que me falam em surdina dentro da minha cabeça como se fosse um coro de protesto fora do contexto.
Se eu pudesse sentir agora o teu calor, molhar-me nas tuas chuvas, transpirar-me nos teus calores…
Se eu pudesse acariciar-te…
… eu não teria Outono.
Sanzalando
há dois anos
Estavas viva em mim e assim ficaste até aos dias de hoje.
Quando te penso é como quando se abre os olhos depois dum sonho. Misteriosa e enigmática, real ou imaginária, longe ou perto. Todo eu estremeço ao ouvir-te sussurrar ao meu ouvido, nem que sejam sons de imaginação. Me transformo num atleta na fragilidade deste corpo quando inicio a vagueação pelo teu corpo. Respeito todos os códigos, a minha timidez sobressai. Aos poucos, como piloto de corrida, me atiro a toda a velocidade nas tuas curvas, travo um combate entre o corpo e a razão num espontâneo desfruto.
Dou todas as voltas possíveis, pensadas, imaginadas e as que surgem do nada. Prioridade não é reconhecida. Neste trânsito de saudade o importante é reconhecer, não importa o quê desde que seja tudo. Posso, quero e desejo. Química abrasiva dum náufrago em vista de porto seguro.
Empreendi uma viagem sem retorno aos abismos do meu desejo numa coreografia de desespero e paixão. Ternura e exaltação.
Estou prisioneiro de ti.
Sanzalando
recado (2)
A maresia condensada em pequenos frascos impregna-me de incertezas e de poemas sem rima. Enganava-te se te dissesse que sou uma triste quimera que segue vagabundeando de sol a sol carregado de esperança perdida. Cada onda que vai e vem deste mar profundo, por vezes frio, outras gelado e outras ainda quente que até deixa dúvida não consegue transforma-me em agonia.
Te digo que sou reciclável, sem resíduos, que mantenho os valores do esforço em cada vez que me reinvento. Te digo mais ainda: que sonho e que procuro navegar pela ilusão, nem que seja num frágil barco de papel.
Sanzalando
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